Arqueologia internética, mídias perdidas e histórias do outer-escambau
março 30, 2025
O mundo é foda
Essa é uma história, conto ou coisa parecida que eu escrevi, baseada em uma história real que meu pai me contou:
"O mundo é foda" dizia Fernando.
Mas não se tratava de uma frase de efeito, casualmente pontuada em alguns momentos propícios.
Fernando dizia "O mundo é foda" a qualquer um, a qualquer hora e em qualquer situação.
A frase era tão proferida por ele que tornou-se seu apelido. Ninguém na cidade conhecia Fernando, mas todos sabiam que o mundo dele era foda.
E não poderiam faltar histórias a seu respeito.
Fernando, como o andarilho urbano que era, pedia. Pedia um copo de pinga barata a qualquer um que visse à porta do bar.
Pedia também comida e um minuto de atenção para uma conversa furada, só o que não pedia era dinheiro.
Sua justificativa para tal era que buscava ser sincero com os seus doadores, que dar a um pedinte não deveria ser um investimento de destino dúbio como o é na maior parte das vezes.
Quando ia ao semáforo pedir, concorria com os outros miseráveis que, exigindo moedas, erguiam placas com suas prerrogativas trágicas e comoventes.
Já Fernando trazia em seu papelão os únicos dizeres :"O mundo é foda", em letras garrafais.
Nos botecos que frequentava, era bom ouvinte e ombro de lágrimas aos velhos bêbados; seus companheiros que, como ele, só encontravam alívio no bálsamo alcoólico.
E quando na rua, como o guardião noturno que era, Fernando zelava pelos outros vadios, pelas mocinhas que voltavam pra casa sozinhas, bem como as jovens almas que tão precocemente tentavam perder-se com drogas.
A estes últimos, não dirigia palavra, deixava que tomassem suas próprias conclusões após uma mirada em seu corpo esquálido; um conto de cautela vivo.
Não tinha a sabedoria dos monges filósofos, tinha apenas a loucura de uma Cassandra que, não podendo dizer o que sabe, deixa que os olhos inchados e a boca berrante falem por si : "O mundo é foda".
Um dia, Fernando foi convidado para o funeral do tio, para o grande desgosto de sua família.
Esta teria feito de tudo para dissuadir o velho acamado daquele último desejo de ver o sobrinho, mas ele partira antes que qualquer um pudesse protestar.
Contrafeitos, os parentes mandaram um amigo da família procurar o sobrinho do morto e dar-lhe o recado; não se rebaixariam tanto a ponto de falar com ele diretamente.
Ninguém esperava que Fernando realmente viesse ao funeral, afinal não era como se ele tivesse qualquer senso de responsabilidade para comparecer ao evento.
Mas lá estava ele, sem carne e em osso, vestindo uma camisa que achara no lixão e como calça tinha um trapo que mal lhe cobria a cueca.
Assim que entrou no salão, todas as senhoras de preto que soluçavam debruçadas sobre o caixão entreolharam-se, pálidas de constrangimento e desgosto.
Os pais de Fernando, que tinham o filho como morto há muitos anos, tentavam não olhar na direção daquele cadáver ambulante.
Mas o traste exalava um odor tão fétido; tão impregnado de urina, embriaguez e fracasso, que ninguém conseguia mais ignora-lo.
Muitos diriam mais tarde que Fernando fedia mais do que o tio defunto, estivesse ele descoberto.
Todos encararam o homem indigente enquanto ele mancava calmamente até a cúpula de vidro do morto .
Naquele momento, ninguém podia acreditar no que via; Fernando desaparecera.
Não havia ali um indigente, mas um homem inteligente que derramava lágrimas silenciosas por seu tio; o único que ainda pensava nele.
Foi quando ele olhou ao seu redor, encarando todos aqueles que haviam se afastado, segurando as crianças para perto de si.
Fernando pôs-se em um pranto ensandecido, urrando repetidamente como o louco bêbado que ele realmente era : "O mundo é foda".
Ninguém nunca se esqueceu daquele dia.
Não fiquei sabendo de mais nada que Fernando fez depois disso, só ouvi que morreu atropelado nesse ano novo.
Devem ter chamado algum parente pra reconhecer o corpo, mas não quiseram escrever o nome dele na gaveta de concreto.
Pessoalmente, desconfio que o jazigo dele é aquele em que algum engraçadinho escreveu : "O mundo é foda".
Há uns 5 anos atrás, me deparei de algumas forma com esse vídeo aqui embaixo todo granulado de um maluco tirando a camiseta e declamando um poema ou maldição em um espaço público.
Só um maluco local, a gente pensa. Nada de novo, todos mundo já viu um parecido na própria cidade ou mesmo em virais da internet. Não dei bola e me esqueci desse achado, até que recentemente encontrei outro video desse mesmo cara. Me deu um deja vu na hora, achei interessante existir tanto material (ainda que tão pouco) sobre ele online. Daí me deu a coceira que me dá de fuçar as coisas, quis pesquisar pra ver se tinha mais algum registro ou memória das pessoas sobre esse figura.
Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que o meu objetivo com esse post foi a da documentação histórica e apreciação da existência desse sujeito, que merece ter sua estampa, suas histórias ouvidas tanto quanto qualquer rei, professor, presidente. Além disso, me interessa também saber como foi percebido e representado pelas pessoas que o conheceram; o seu microimpacto na cultura, o seu arquétipo. Não quero de forma alguma falar dele de jeito desumanizado, como se ele fosse um espetáculo, um espécime a ser estudado. Portanto, me perdoem e me comuniquem se essa foi a impressão que tiveram com esse post. (Se qualquer pessoa citada ou autora de um dos vídeos que eu mostrei quiser que eu retire o post, eu retiro). Findado esse disclaimer, comecemos.
Inicialmente, a partir dos vídeos que encontrei, From Hell parece ser um personagem bem conhecido de Goiânia, um andarilho que aparece muitas vezes trajado de preto, corpse paint, aparência de metaleiro. Profere poemas malditos, que falam de poderes corruptos, das trevas e da queda da sociedade. Já de cara ele tem uma interpretação bem distinta em suas recitações, com modulações vocais que poderiam muito bem estar em uma música do The Black Dahlia Murder.
Abaixo, o que eu encontrei, por ordem de gravação:
Esse vídeo acima foi a peça mais informativa dessa investigação, sendo o trecho de um documentário produzido pelo escritor e historiador goianiense Ademir Luiz da Silva. Na descrição do vídeo, encontramos o seguinte:
O curta acompanha as recitações performáticas e a pregação do poeta marginal Tércio Pablo Oliveira de Ortiz, mais conhecido como From Hell, em dois ambientes antagônicos de Goiânia: um festival de rock e uma feira natalina. Armado com uma atitude iconoclasta e irônica, From Hell provoca diferentes reações por onde passa. Alguns se assustam, outros se espantam, ninguém fica indiferente. Afirmando ter feito um pacto com o Diabo, From Hell não se contenta apenas em aparecer ou chocar. Pretende questionar as bases da hipócrita e moralista sociedade burguesa. Do Papai Noel ao menino Jesus, ninguém escapa. Segunda parte da série de documentários "Deus e o Diabo na Terra do Pequi", abordando o misticismo e ceticismo em Goiás.
As outras partes do documentário são focadas em outros dois personagens de Goiânia e foram publicados pelo canal. Desde aí, podemos ver um interesse de capturar, transformar em imagem um trecho das andanças desses nossos "malucos urbanos" que só quem sabe sabe. Futucando um pouco mais, encontrei que o autor desse vídeo o exibiu na IV Mostra Trash de Cinema em Goiânia (https://dosol.com.br/iv-mostra-trash-de-cinema-em-goiania/). A ficha dele informa que foi produzido em 2006 com duração de 18 minutos. Pela incompatibilidade da duração desse documentário com o vídeo do Youtube e o conjunto de documentários "Deus e o Diabo na Terra do Pequi", é possível que o "From Hell - poeta maldito" listado na mostra seja uma versão estendida do que foi postado no Youtube. Mas daí já estou virando uma maluca por fuçar nessas coisas mínimas... Prossigamos.
Achei esse blog aqui de uma DJ itinerante que passou por Goiânia e se deparou com o From Hell (ou um xará vestido de From Hell, não sei dizer) cuidando do camarim:
Hoje no Reddit, achei uns comentários de um post no r/goiania que fazem referência a uma fase do From Hell em que teria se "convertido" e me lembrei dessas manifestações da espiritualidade dele no site de esoterismo. É possível que tenham sido feitos nesse período de conversão religiosa.
Esse aqui é interessante por mostrar a relevância cultural da caricatura do From Hell em Goiânia por meio de uma transmissão da sua figura. O vídeo é de uma batalha de rimas que ocorreu na praça universitária da cidade (região muito frequentada por From Hell, de acordo com os vídeos encontrados e alguns comentários), contando com a participação de um From Hell cover. O dublê replica o corpse paint, a voz e o texto mais emblemático do Poeta Maldito. A interpretação ficou tão boa que eu fiquei em dúvida se não seria o cara genuíno. Também me pergunto se esses universitários que interagiram com ele nesse intervalo de 2005-2012 por aí não teriam escrito, gravado, criado mais coisas sobre ele que são mais difíceis de rastrear (vai ver por não usarem o nome "From Hell", mas 'maluco satânico da praça universitária' ou coisa assim).
E esse é o fim da história pelo que tem na internet, provavelmente nunca saberemos ao certo a origem e o fim que teve From Hell. Mas é bom que ao menos temos alguns vislumbres da sua passagem.
Pra finalizar, eu gostaria de embalar o post falando sobre a importância de manter vivos esses registros. Não, não vou falar que devemos gravar os excentricos da cidade e postar na internet, já que muitas vezes isso é feito sem o respeito devido, seja por não pedir permissão ou por gravar a pessoa num estado de desgraça ou vexame. A minha proposta é só pesquisarmos, buscarmos saber mais sobre essas pessoas e preservar as suas histórias como lendas contadas de boca em boca (sem as desumanizar). Conversar com elas, bater um papo, perguntar como vai a vida, de onde vieram, pra onde querem ir, se conseguem comer todos os dias. São coisas que me passam pela cabeça.
Em 2025, com o primeiro filme brasileiro premiado com um Oscar, o cinema nacional jorrou da boca da imprensa e do povo de um jeito nunca visto antes. Fora alguns clássicos cult como Cidade de Deus, Auto da Compadecida e Tropa de Elite, a gente nunca apreciou tanto um filme brasileiro. E o motivo disso é óbvio, temos pra nós que no cinema (como órgão neutro internacional), não existe honraria maior que a estatueta dourada em sua plena academizisse perfeitamente formatada hollywoodiana e que finalmente fomos vistos e amados pelos nossos queridos Johns Cheeseburgers. E eu digo isso sem a intenção de desmerecer essa vitória, que foi fruto de uma luta árdua da parte de toda a produção, com uma ambientação histórica e política bem feita, fora uma atuação realista e boa direção, trilha sonora, etc. Não falo aqui do filme em si mas do investimento maciço do brasileiro na corrida do Oscar, com as campanhas nas redes sociais (como só a webfalange tupiniquim sabe fazer) pra tudo quanto é crítico e youtuber gringo, em um movimento clássico nosso de buscar reconhecimento e validação estrangeiras pelas nossas coisas. Até nos nossos filmes menos pretensiosos, como os pastelões de caras como o Leandro Hassum e Fábio Porchat, nos desvalorizamos e nos medimos com as réguas e sistemas do norte global.
Tudo isso me fez pensar: e o que a gente faz que foge dessas normas? Que não busca agradar gringos, cinéfilos ou críticos mas só fazer um filme, não importando se se enquadra nos padrões do profissionalismo e da originalidade ou não.
Eu falo do cinema de bordas; o filme independente que chora e a mãe não vê; a produção artesanal feita por estudantes de ensino médio, pedreiros e manicures da pequena cidade de Sapiroquinha do Norte (MG) nos dias vagos, não por grana ou reconhecimento mas por pura paixão (exemplo fictício, mas perfeitamente ilustrativo do que eu quero abordar).
Nessa série de posts, não pretendo fazer nenhuma revisão histórica ou panorama central sobre o fenômeno pois não tenho autoridade e nem grandes conhecimentos sobre, escrevo aqui como entusiasta amadora das coisas amadoras. Mas se tiver interesse em pesquisar mais sobre as raízes e desenvolvimento desse gênero, eu recomendo dar uma lida sobre a Boca do Lixo de São Paulo e as pornochanchadas em geral. Meu objetivo aqui é explorar alguns filmes e produtores que conheci nessa jornada, comentar minhas impressões, o processo de produção e a recepção do público a essas obras.
Ai que vida!
Começando pelo começo, esse filme que foi o meu primeiro contato com as mídias caseiras. Em uma bela tarde de tédio, eu criança fuçava na coleção de centenas de DVDs que meu pai cuidadosamente queimara ao longo dos anos. Em meio aos milhares (literalmente) de títulos naquela pilha, eu achei a comédia piauiense "Ai que vida!". O nome imediatamente me chamou a atenção, botei o treco no player e me apaixonei.
O longa (sabe, longa-metragem, pra eu não ficar repetindo a palavra 'filme') se passa na cidade fictícia de Poço Fundo, nos anos 1990 do nordeste brasileiro, onde o prefeito corrupto Zé Leitão tenta se reeleger com propostas populistas mentirosas. Sua maior adversária nessa corrida eleitoral é a dona de funerária Cleonice, que tenta conscientizar a população dessa realidade e lutar pelos seus direitos. Além desse conflito administrativo, na trama há também o romance telenovelesco entre Valdir e Charlene, uma dançarina que é noiva de outro homem.
Casal principal: Charlene e Valdir
O genuíno das expressões culturais e a forma simples porém gostosa em que a narrativa dramática é arquitetada é o que mais te chama nesse filme. O elenco, ainda que amador, me comprou muito mais no realismo do que muitas produções da Globo, justamente por não forçar muito a barra do teatral e da pretensão. Ainda assim, há alguns personagens mais caricatos, como Mona, Zé Leitão e sua primeira dama, que não deixam de ser críveis na sua espalhafatosidade cômica.
Recomendo o filme a qualquer um que queira se divertir com essa obra de amor, que mesmo caseira consegue ser consistente até pra criticidade do telespectador médio.
Da esquerda pra direita: Mona, Charlene e Gerod (ou Gerald, não sei como escreve)
Agora, pros detalhes de produção e distribuição do filme; ele foi dirigido por Cícero Filho e gravado em cidadezinhas do Piauí e Maranhão entre 2006 e 2007, com custo total de 30 mil reais. De acordo com Cícero, a produção teve um orçamento inicial de 800 reais e só angariou o resto desses fundos ao final da gravação, em que empresários começaram a investir no filme. Não existe concordância completa entre as fontes quanto à qualidade do material usado, sendo que algumas afirmam que o filme foi todo gravado em analógico e outras que utilizou a melhor tecnologia digital de imagem e áudio do estado na época (assistindo, não sei dizer se seria a melhor tecnologia digital da época mas com certeza usaram um equipamento bom).
Foto da equipe
O elenco foi composto tanto por habitantes das comunidades da gravação como por funcionários e estudantes da universidade a que Cícero era filiado, a qual também forneceu o patrocínio e o equipamento à equipe. A população da cidade de Amarante, principal local de filmagem, participou do filme na figuração e no suporte técnico, inclusive emprestando suas residências e veículos para a gravação. No entanto, os habitantes não tinham muita ideia do que estava acontecendo e não se tinha grana pra pagar uma figuração formal, de modo que em cenas com muitas pessoas, como os comícios, a equipe saía com um carro de som chamando quem quisesse participar. Além disso, muitos acreditavam que o conflito político da trama era uma manifestação real contra o atual prefeito da cidade. Esse problema de confundir ficção com realidade também aconteceu na gravação de uma cena de perseguição com espingarda, em que mesmo se usando estalinhos de festa junina o povo achou que tava tendo um tiroteio, chamando a polícia pro set de filmagem.
No lançamento do filme, a primeira rede de cinemas contatada não concordou em exibir, ainda que fosse em uma segunda-feira e que ela recebesse 80% da bilheteria. A rede do shopping Riverside topou e levou a melhor, com duas semanas de estreia lotadas e mais bilheteria em uma semana do que o que o último Harry Potter agregou em um mês naquele cinema.
E assim, "Ai que vida" foi se alastrando por cinemas de cidades vizinhas e festivais, mas sua popularização por todos o país só se deu pela pirataria.
Apenas 300 DVDs oficiais do filme foram produzidos, mas numa época de auge da pirataria de DVDs no Brasil, não poderia ser diferente que fossem maciçamente replicados, upados em programas de P2P e vendidos em camelôs. Cícero Filho teve o seguinte parecer sobre isso:
“Ai que vida” se alastrou, tudo culpa da pirataria. Fico feliz, ao ver que o filme está sendo aceito de forma positiva pela população. Difundir o cinema para a população menos favorecida é um foco primordial do meu trabalho. Meu maior lucro é ver as pessoas comentando que gostaram muito do filme, que se retrataram com o enredo e as personagens!
Pretendo escrever mais posts no futuro sobre as repercussões da pirataria para o público e os produtores da obra original, por isso não vou me estender sobre isso aqui, só basta informar que no caso de "Ai que vida!" , a distribuição ilegal não prejudicou a renda obtida no cinema, até a favorecendo em termos de exposição e credibilidade dos artistas envolvidos. Sem esse recurso, afinal, o filme muito provavelmente não receberia a atenção e o amor que teve em uma proporção tão grande; eu que não sou da região onde ele foi produzido nem teria ouvido falar dele se meu pai não gravasse filmes pelo Ares.
Cícero Filho continuou distribuindo seus filmes de forma artesanal, utilizando as redes extensas (na época) de vendedores de DVD pirata do Piauí e do Maranhão.
Por hoje é só, obrigado e até a próxima.
Capa de DVD do filme (Júnior DVDs)
Capa de DVD de uma sequência fictícia do filme (Júnior DVDs)
Máquina de quadrinhos da Turma da Mônica, saudosa MQTM. Quem aí já acessou ou já ouviu falar? Foi uma das minhas principais ocupações na internet entre 2011 e 2013, boas memórias. Engraçado que nessa época eu achava que era um site desses como Click jogos ou Friv que todo mundo conhecia e acessava nas salas de informática da escola. Com o tempo, conversando com as pessoas, fui descobrindo o quanto ele era desconhecido ou esquecido pela maior parte. Foi uma plataforma com uma trajetória no mínimo pitoresca, como vamos ver, e que teve umas atualizações inesperadas de uns tempos pra cá.
Então, primeiramente,
O que foi a Máquina de quadrinhos da Turma da Mônica?
Foi uma plataforma digital de criação de quadrinhos desenvolvida pela Maurício de Souza Produções em setembro de 2009, que permitia que as crianças criassem suas próprias HQs com as sprites prontas da ferramenta, podendo publicar essas histórias no site, participar de concursos e interagir nas publicações de outros usuários (bem como outras coisas).
Interface de criação dos quadrinhos
Foi criada como uma das celebrações aos 50 anos da Turma da Mônica, mas obviamente o principal motivo do desenvolvimento do site foi a solidificação da cyber-presença da marca na internet, que até onde eu sei só contava com um site de leitura de historinhas na época, nada de interativo ainda.
No site, haviam assinaturas mensais que permitiam acesso a pacotes temáticos de personagens e objetos.
Uma das promessas mais atrativas da MQTM era a possibilidade de se ter uma HQ sua selecionada pela equipe editorial da MSP pra ser publicada nas revistinhas da Mônica. Eu me lembro de ter uma revista que tinha uma dessas histórias selecionadas mas nunca a achei de novo.
Olhando em uma wiki, até achei informações sobre uma Revista Digital lançada em 2009 que seria um acervo de historinhas da MQTM selecionadas pelos moderadores. Entretanto, essa revista foi cancelada em 2011 por ter causado intrigas entre os usuários e, como grande parte da MQTM, não possui nenhum registro online.
Uma coisa que eu encontrei foram algumas informações sobre o primeiro concurso de historinhas da MQTM, realizado em 2009.
Bicho, eu ralava pra ganhar um Wii hein..
Aparentemente, 50 histórias foram inicialmente selecionadas e depois foi filtrado pra 10. No site, temos os seguintes prêmios para os vencedores:
1° lugar – 1 Nintendo Wii + 1 assinatura anual da MQTM;
2° lugar – Livro MSP 50 autografado pelo Mauricio de Sousa + 1 assinatura anual da Turma da Mônica + 1 assinatura anual da MQTM;
3° lugar – 1 assinatura anual da Turma da Mônica + 1 assinatura anual da MQTM;
4° ao 10° lugar – 1 assinatura mensal da MQTM.
Comunidade
Criações
Por mais que a Máquina de Quadrinhos fosse da Turma da Mônica, contando com sprites de personagens, fundos e props dos gibis, desde o prinicipio teve a galera fora da curva no site, que queria criar pra além do MSPverso.
Esses usuários eram conhecidos pela sigla de MQPI (maquina de quadrinhos dos personagens inventados) e criavam HQs com seus próprios personagens, os quais nasciam pela manipulação de props inanimadas sobre os personagens base da turma da Mônica. Nessa toada, utilizavam-se tapetes, bistecas, estrelas cadentes, luas, nuvens, vassouras e o raio que o parta pra simular uma customização de cabelos, roupas e acessórios dos personagens. De longe, a base de personagem mais usada era a de Magali (talvez porque achassem o dentão da Mônica pouco ortodoxo), que sempre protagonizava alguma série de uma jovem com poderes mágicos que se muda pra uma escola nova e sofre bullying ou sei lá o que que tem em todo romance jovem adulto.
Vai aí uma seleção de imagens desses prodígios da criatividade (sem ironia, tá ?) que eu consegui encontrar.
Como vão ver em exemplos próximos, o boné era um objeto chave pra esconder a origem do elemento absurdo sendo usado como cabelo.
Esse tapete aí tinha a variação laranja e lilás que eram usadas como cabelo.
Uma outra gambiarra famosa era a de olhos hiperdetalhados de anime. Esse aí até que tá simples, só um elemento pra colorir o olho e uma nuvem (eu juro que já vi essas nuvens sendo usadas como presas de vampiro).
Um exemplar do cabelo de vassoura
Um exemplo perfeito de como eram os melhores galãzinhos dessas webnovelas. Cabelo do jeitinho que 2012 gostava.
Um dos raros exemplos em que a Mônica foi contemplada com a customização.
A comunidade da MQPI foi bem prolífera em termos de séries, tendo de tudo desde os romances colegiais, comédias, fantasia e réplicas de programas existentes (tinha bastante no formato de reality show). Para a felicidade do bisbilhoteiro e web-arquivista, algumas dessas séries tiveram partes disponibilizadas no Youtube, que é um dos únicos registros existentes da comunidade online do site.
Conflitos & dramas
Algumas intrigas triviais mas válidas de menção incluem a briga contínua entre criadores do MQPI e do clã tr00 turma da Mônica Deus Vult (os que só usavam personagens canon da MSP). O debate que advém da clássica pergunta : "Será que se eu modificar muito esse objeto ele vai perder tudo o que o caracterizava originalmente e não vou poder mais chamar a MQTM de Máquina de Quadrinhos da Turma da Mônica?????"
Mas, nessa seção aqui, eu gostaria de trazer alguns episódios específicos que eu me lembro (e que pude rastrear em alguma medida).
Em primeiro lugar, aquela vez que fizeram um webcasamento no site em 2013 (pouquinho antes de fechar). Tudo começou com algumas hqs de anúncios e preparativos desse casamento, chamado de Casamento do Ano, que uniria os usuários Rah_Rockera e GusttavoLimaEVc. Não sei se vocês se lembram mas na minha impressão teve bastante impacto, bastante gente fez hqs em resposta ou escreveu sobre em blogs, seja pra criticar essa pataquada ou pra criar personagens convidados pra aparecerem na hq de casamento. Minha principal memória disso tudo foi uma resposta em video feita pelo pessoal do blog MQ Fail, em que chamam o evento de "cagamento do ano".
Única imagem do tal casamento que consegui achar
O outro conflito (e o mais dramático) já tá meio amarrado com a queda da MQTM, que seria a guerra contra a usuária Laisaa.
Primeiramente,quem seria Laisaa e o que fez esta criatura pra angariar tanto ódio e lendas urbanas?
Laisaa, segundo se dizia, era uma hacker que postava HQs inapropriadas, as quais duravam meses sem que um moderador as removesse. Na época, se vivia um apocalipse no site; a moderação era caquética, nunca havia uma manutenção adequada de nada. Frente ao site ser deliberadamente deixado pra se fuder pela moderação e equipe do MSP e do R7, se tornou muito fácil que Laisaa se aproveitasse dessas vulnerabilidades pra dar uma zoada, mas muitos usuários acreditavam piamente que todas essas falhas na MQTM eram causadas pela atividade hacker (buuuuu) da garota. (Eu era uma das crianças que acreditava nisso...)
Com vocês, a primeira e mais importante obra de Laisaa
Houve várias teorias sobre a identidade e os objetivos de Laisaa, com vários fakes e supostas contas de um namorado ou de uma irmã dela. Também teve, em algum momento, um rumor de que a Laisaa infectaria a MQTM com um vírus fatal no dia 20 de abril de 2012, que precisou ser rebatido pelo atencioso pessoal do SAC da MQTM
Maior crueldade dessa história toda
As interações da garota e suas contas alternativas com a criançada do MQTM era hostil na maior parte das vezes.
A Laisaa também foi acusada de hackear contas de usuários conhecidos, os quais subitamente começavam a responder seus seguidores de forma rude.
Em algum momento, ela teria tentado estabelecer paz com os usuários por meio de uma das suas contas alternativas, sendo imediatamente rechaçada.
Queda
A MQTM morreu em 21 de abril de 2013, com a seguinte mensagem:
O motivo do fim não foi a Laisaa como muitos quiseram acreditar, mas sim a incompetência da MSP em manter o site. A cagada primordial foi que, em 2011, houve um acordo com o portal R7 para hospedar a máquina de quadrinhos, o que resultou em uma onda de bugs e problemas no cadastro de novas contas e no processo de assinatura. Com isso, a MQTM foi só se degringolando com os mods todos largando o barco as traças e o caos comendo solto.
Reencarnação
Anos depois do fim da MQTM, eu tentei procurar registros da sua existência, pra me provar que isso não era delírio meu. Não tinha a menor esperança com os escombros de blogs e vídeos que encontrava, sabia que desse ponto em diante o site, sua comunidade e a ferramenta da máquina de quadrinhos seriam completamente perdidos. Foi aí que certo dia, perambulando pelo reddit de lost medias brasileiras, me deparei com um projeto de recuperação da Máquina de Quadrinhos.
Só isso já teria me deixado muito feliz pelo fato de lembrarem disso. Mas era muito mais, um cara tinha comprado a versão em cd-ROM da máquina e disponibilizado o seu acesso. As interações online da MQTM estão quase totalmente perdidas (em relação a todo o seu material já criado) mas a ferramenta agora era pública e arquivada! Enfim, não tem alegria maior pro bisbilhoteiro.
Se bateu uma saudade da MQTM com esse post, entrem no subreddit que foi criado (https://www.reddit.com/r/MaquinadeQuadrinhos/) e contribuam, eu peço! Não há nenhuma outra forma de preservar a essência da MQTM além de compartilhando essas memórias e recombinando-as em coisas novas.