Arqueologia internética, mídias perdidas e histórias do outer-escambau
março 19, 2025
Bizoiada no cinema de bordas #1: Ai que vida!
Em 2025, com o primeiro filme brasileiro premiado com um Oscar, o cinema nacional jorrou da boca da imprensa e do povo de um jeito nunca visto antes. Fora alguns clássicos cult como Cidade de Deus, Auto da Compadecida e Tropa de Elite, a gente nunca apreciou tanto um filme brasileiro. E o motivo disso é óbvio, temos pra nós que no cinema (como órgão neutro internacional), não existe honraria maior que a estatueta dourada em sua plena academizisse perfeitamente formatada hollywoodiana e que finalmente fomos vistos e amados pelos nossos queridos Johns Cheeseburgers. E eu digo isso sem a intenção de desmerecer essa vitória, que foi fruto de uma luta árdua da parte de toda a produção, com uma ambientação histórica e política bem feita, fora uma atuação realista e boa direção, trilha sonora, etc. Não falo aqui do filme em si mas do investimento maciço do brasileiro na corrida do Oscar, com as campanhas nas redes sociais (como só a webfalange tupiniquim sabe fazer) pra tudo quanto é crítico e youtuber gringo, em um movimento clássico nosso de buscar reconhecimento e validação estrangeiras pelas nossas coisas. Até nos nossos filmes menos pretensiosos, como os pastelões de caras como o Leandro Hassum e Fábio Porchat, nos desvalorizamos e nos medimos com as réguas e sistemas do norte global.
Tudo isso me fez pensar: e o que a gente faz que foge dessas normas? Que não busca agradar gringos, cinéfilos ou críticos mas só fazer um filme, não importando se se enquadra nos padrões do profissionalismo e da originalidade ou não.
Eu falo do cinema de bordas; o filme independente que chora e a mãe não vê; a produção artesanal feita por estudantes de ensino médio, pedreiros e manicures da pequena cidade de Sapiroquinha do Norte (MG) nos dias vagos, não por grana ou reconhecimento mas por pura paixão (exemplo fictício, mas perfeitamente ilustrativo do que eu quero abordar).
Nessa série de posts, não pretendo fazer nenhuma revisão histórica ou panorama central sobre o fenômeno pois não tenho autoridade e nem grandes conhecimentos sobre, escrevo aqui como entusiasta amadora das coisas amadoras. Mas se tiver interesse em pesquisar mais sobre as raízes e desenvolvimento desse gênero, eu recomendo dar uma lida sobre a Boca do Lixo de São Paulo e as pornochanchadas em geral. Meu objetivo aqui é explorar alguns filmes e produtores que conheci nessa jornada, comentar minhas impressões, o processo de produção e a recepção do público a essas obras.
Ai que vida!
Começando pelo começo, esse filme que foi o meu primeiro contato com as mídias caseiras. Em uma bela tarde de tédio, eu criança fuçava na coleção de centenas de DVDs que meu pai cuidadosamente queimara ao longo dos anos. Em meio aos milhares (literalmente) de títulos naquela pilha, eu achei a comédia piauiense "Ai que vida!". O nome imediatamente me chamou a atenção, botei o treco no player e me apaixonei.
O longa (sabe, longa-metragem, pra eu não ficar repetindo a palavra 'filme') se passa na cidade fictícia de Poço Fundo, nos anos 1990 do nordeste brasileiro, onde o prefeito corrupto Zé Leitão tenta se reeleger com propostas populistas mentirosas. Sua maior adversária nessa corrida eleitoral é a dona de funerária Cleonice, que tenta conscientizar a população dessa realidade e lutar pelos seus direitos. Além desse conflito administrativo, na trama há também o romance telenovelesco entre Valdir e Charlene, uma dançarina que é noiva de outro homem.
Casal principal: Charlene e Valdir
O genuíno das expressões culturais e a forma simples porém gostosa em que a narrativa dramática é arquitetada é o que mais te chama nesse filme. O elenco, ainda que amador, me comprou muito mais no realismo do que muitas produções da Globo, justamente por não forçar muito a barra do teatral e da pretensão. Ainda assim, há alguns personagens mais caricatos, como Mona, Zé Leitão e sua primeira dama, que não deixam de ser críveis na sua espalhafatosidade cômica.
Recomendo o filme a qualquer um que queira se divertir com essa obra de amor, que mesmo caseira consegue ser consistente até pra criticidade do telespectador médio.
Da esquerda pra direita: Mona, Charlene e Gerod (ou Gerald, não sei como escreve)
Agora, pros detalhes de produção e distribuição do filme; ele foi dirigido por Cícero Filho e gravado em cidadezinhas do Piauí e Maranhão entre 2006 e 2007, com custo total de 30 mil reais. De acordo com Cícero, a produção teve um orçamento inicial de 800 reais e só angariou o resto desses fundos ao final da gravação, em que empresários começaram a investir no filme. Não existe concordância completa entre as fontes quanto à qualidade do material usado, sendo que algumas afirmam que o filme foi todo gravado em analógico e outras que utilizou a melhor tecnologia digital de imagem e áudio do estado na época (assistindo, não sei dizer se seria a melhor tecnologia digital da época mas com certeza usaram um equipamento bom).
Foto da equipe
O elenco foi composto tanto por habitantes das comunidades da gravação como por funcionários e estudantes da universidade a que Cícero era filiado, a qual também forneceu o patrocínio e o equipamento à equipe. A população da cidade de Amarante, principal local de filmagem, participou do filme na figuração e no suporte técnico, inclusive emprestando suas residências e veículos para a gravação. No entanto, os habitantes não tinham muita ideia do que estava acontecendo e não se tinha grana pra pagar uma figuração formal, de modo que em cenas com muitas pessoas, como os comícios, a equipe saía com um carro de som chamando quem quisesse participar. Além disso, muitos acreditavam que o conflito político da trama era uma manifestação real contra o atual prefeito da cidade. Esse problema de confundir ficção com realidade também aconteceu na gravação de uma cena de perseguição com espingarda, em que mesmo se usando estalinhos de festa junina o povo achou que tava tendo um tiroteio, chamando a polícia pro set de filmagem.
No lançamento do filme, a primeira rede de cinemas contatada não concordou em exibir, ainda que fosse em uma segunda-feira e que ela recebesse 80% da bilheteria. A rede do shopping Riverside topou e levou a melhor, com duas semanas de estreia lotadas e mais bilheteria em uma semana do que o que o último Harry Potter agregou em um mês naquele cinema.
E assim, "Ai que vida" foi se alastrando por cinemas de cidades vizinhas e festivais, mas sua popularização por todos o país só se deu pela pirataria.
Apenas 300 DVDs oficiais do filme foram produzidos, mas numa época de auge da pirataria de DVDs no Brasil, não poderia ser diferente que fossem maciçamente replicados, upados em programas de P2P e vendidos em camelôs. Cícero Filho teve o seguinte parecer sobre isso:
“Ai que vida” se alastrou, tudo culpa da pirataria. Fico feliz, ao ver que o filme está sendo aceito de forma positiva pela população. Difundir o cinema para a população menos favorecida é um foco primordial do meu trabalho. Meu maior lucro é ver as pessoas comentando que gostaram muito do filme, que se retrataram com o enredo e as personagens!
Pretendo escrever mais posts no futuro sobre as repercussões da pirataria para o público e os produtores da obra original, por isso não vou me estender sobre isso aqui, só basta informar que no caso de "Ai que vida!" , a distribuição ilegal não prejudicou a renda obtida no cinema, até a favorecendo em termos de exposição e credibilidade dos artistas envolvidos. Sem esse recurso, afinal, o filme muito provavelmente não receberia a atenção e o amor que teve em uma proporção tão grande; eu que não sou da região onde ele foi produzido nem teria ouvido falar dele se meu pai não gravasse filmes pelo Ares.
Cícero Filho continuou distribuindo seus filmes de forma artesanal, utilizando as redes extensas (na época) de vendedores de DVD pirata do Piauí e do Maranhão.
Por hoje é só, obrigado e até a próxima.
Capa de DVD do filme (Júnior DVDs)
Capa de DVD de uma sequência fictícia do filme (Júnior DVDs)
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