julho 18, 2026

Bizoiada no cinema de bordas #2: Entrei em Pânico ao Saber o Que Vocês Fizeram na Sexta-feira 13 do Verão Passado (2001)







Olá, bisbilhoteiros! Hoje vim lhes dirigir a palavra sobre um filme caseiro pra lá de bom (na minha opinião muito duvidosa) que é um ícone do cinema trash brasileiro. Falo do filme gaúcho "Entrei em Pânico ao Saber o Que Vocês Fizeram na Sexta-feira 13 do Verão Passado" que já tem um título de tirar o fôlego (ao longo do post, abreviarei o nome pra "Entrei em pânico..."). Em um naipe parecido a primeira parte dessa série, vou comentar sobre o processo de produção do filme, o processo de distribuição e minhas impressões gerais.


Produção

Começando pelo começo. Entrei em pânico... foi produzido por Felipe Guerra e amigos ao longo de 8 meses, com o orçamento de R$250. A página do IMDB dessa beleza conta com algumas curiosidades da produção (presumivelmente adicionadas pelo próprio Felipe já que não são encontradas em nenhum outro lugar). Menciono aqui algumas que são de nota.
  • "O filme foi originalmente filmado e editado inteiramente em VHS. Ninguém foi pago e o único custo foi com as fitas e com o material comprado para os efeitos especiais práticos e improvisados."
  • "A gênese do filme foi uma maratona com os nove filmes (na época) da série “Friday the 13th”, feitos por produtores Felipe M. Guerra e Eliseu Demari durante uma semana de ociosidade."
  • "O primeiro corte do filme foi “dirigido pelos personagens”, com inúmeros diálogos e cenas focadas na amizade entre os jovens protagonistas. Anos depois, os cineastas fizeram uma regravação, tentando fazer com que o filme funcionasse melhor como uma sátira sangrenta de filmes de terror, eliminando a maioria das cenas que tinham a tarefa de construir personagens. Diretor Felipe M. Guerra sempre disse que prefere o filme antes do início dos assassinatos."
  • "Quando a principal protagonista feminina Niandra Sartori anunciando que ela começaria sua faculdade e precisava se mudar para outra cidade, os cineastas cogitaram matar sua personagem e concluíram o filme com dois “garotos finais” em vez da tradicional “garota final” — o que tornaria o final muito parecido com Chamas da Morte (1981). Duas cenas que pertenceram a Niandra foram filmadas com Marcelo Ferranti em seu lugar. Felizmente, Niandra conseguiu conciliar sua agenda de filmagens com os estudos e permaneceu no filme como a “garota final” oficial. As cenas alternativas sem a personagem dela foram descartadas".
  • "O sangue foi criado a partir da mistura de groselha com outros produtos, tais como Coca-Cola e Nescau."








Além disso, a primeira versão do filme contava com 2 horas de duração, que foram podadas em reedições futuras. O longa foi cortado para 90 minutos em 2009, 83 em 2010 e, finalmente, terminou tendo 81 minutos em sua versão mais atual, chamada de "redux".


O enredo

O primeiro filme de "Entrei em pânico..." é situado na cidade gaúcha de Carlos Barbosa e acompanha um grupo de adolescentes em sua comemoração de formatura, que são assassinados um a um pelo assassino mascarado e vítima de bullying, Jeison. Esclarecendo um pouco mais, a trama é principalmente voltada para o personagem Goti, que está organizando uma festa (chamada no dialeto local-temporal de 'concentração') em sua casa para celebrar a formatura do ensino médio, convidando seus amigos e colegas de sala, além do seu contatinho do ICQ, Niandra. Um desses convidados é justamente Jeison, que por toda a sua vida foi caçoado por ser xará do assassino de Sexta-Feira 13 (aliás, a festa se passa em uma noite de sexta-feira 13, que conveniente!) e decide se vingar dos seus colegas matando-os um por um trajado de Ghostface.







O resumo da ópera é que Jeison consegue fazer exatamente isso, matando a maior parte dos convidados da concentração de formas bem ridículas e criativas, claramente inspiradas nas gimmicks do Todo Mundo em Pânico, de 2000 (destaque pra torneira de sangue e as universitárias do programa do Silvio Santos). É possível perceber já de cara o quanto 'Entrei em Pânico...' bebe de Todo Mundo em Pânico pelo seu titulo e proposta, ou seja, uma comédia pastelão que ironiza diversos filmes clássicos de terror e os clichês do gênero. Se pensarmos que o próprio Pânico original já foi pioneiro da ideia dos personagens terem consciência desses tropos, dá pra dizer que 'Entrei em pânico...' é a paródia da paródia da paródia. Isso não é nem de longe uma crítica, mas uma observação que achei interessante pois, mesmo reproduzindo, a nossa iteração brasileira ainda consegue ser autêntica e criativa. Uma das marcas involuntárias da originalidade dessa produção é o próprio sotaque e as expressões gaúchas (que, podemos dizer, também são específicas desse período e da cidade de Carlos Barbosa), algumas tão enigmáticas que a versão atualizada do filme conta com legendas em português 'comum' (que por si só são hilárias pelas traduções intencionalmente absurdas).


Minha experiência descobrindo e assistindo essa obra foi muito divertida e a recomendo para todos (com gosto duvidoso), especialmente na companhia de amigos (também de gosto duvidoso).

Distribuição e repercussão






Em seu primeiro lançamento, Entrei em Pânico foi exibido no Cine Ideale de Carlos Barbosa em 23 de dezembro de 2001. Em uma internet engatinhante no Brasil, o filme já chamava atenção pelo seu título, tendo sido comentado por uma revista da Espanha na época. Com todo o alcance obtido, Felipe Guerra decidiu se inspirar no modelo de distribuição já utilizado pelo cineasta independente Petter Baiestorf (cujo trabalho na Canibal Filmes também será comentado em posts futuros), de vender fitas pela internet. Guerra conseguiu vender aproximadamente 500 fitas, ainda produzindo uma versão de 'colecionador' de 160 minutos com cenas extras de erros de gravação (esta teria sido comprada por "meia dúzia" de pessoas).
Com a circulação do seu trabalho, o nome de Felipe Guerra como um 'cineasta independente de terror' (ainda que não quisesse ser conhecido assim), apareceu em revistas nacionais e chegou ao conhecimento de Luciano Huck, o que levou à produção da maravilhosidade audiovisual 'Mistério na Colônia (2003)'. Algo que me chama a atenção, que é mencionado por Guerra em uma entrevista, é que, nesse período do início dos anos 2000 (e antes também), filmes como Entrei em Pânico não chamavam a atenção de festivais e de pesquisadores do cinema por serem considerados vídeos caseiros (nesse caso, uma produção em VHS com pouquíssimos recursos e qualidade técnica baixa) e não 'cinema de verdade'. Acredito que essa marginalidade seja uma característica seminal do cinema de bordas, que é lido sequer como cinema mas como uma série de experiências amadoras, fajutas.
Me parece que esse fenômeno audiovisual só passou a receber maior atenção em meados dos anos 2010, depois do desenvolvimento e da fermentação desse conceito por alguns pesquisadores da comunicação, no final dos anos 2000. Assim, a aparição de Entrei em Pânico em festivais de cinema se iniciou nesse período, com três participações entre 2010 e 2012. Em 2021, houve o retorno da obra para o 17º Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre (Fantaspoa), já na versão 'Redux'. Houve ainda outra exposição em 2025, no 1º Festival de Cinema Independente de Garibaldi.

Lost Media?

Desde os quase 25 anos em que Entrei em pânico foi lançado, este só esteve acessível por sua exibição em festivais e pela compra da fita em VHS (vendida só no ano de lançamento). Nesse caso, o filme poderia ser chamado de Lost media, o que é debatível, mas se o critério para lost media for uma mídia que não pode ser acessada integralmente pela internet, confere. Há poucos anos, isso mudou quando a versão Redux do filme foi publicada no 'Acervo do Drive', do Twitter - não se sabe quem a vazou; o Felipe Guerra ficou sabendo e disse não ter sido o responsável. Este disse que esse upload poderia ser derrubado a qualquer momento, pois muitos atores que estavam no filme não assinaram um contrato e já não são mais seus amigos atualmente. Dito e feito, aquele upload específico foi derrubado mas ainda pode ser encontrado hoje em dia se procurar um pouco.



Ainda assim, fico com uma pulga atrás da orelha, pensando no que foi feito das versões antigas de Entrei em Pânico. Talvez aqueles cortes intermediários de 2009 e 2010 sejam mais difíceis de se encontrar, já que aparentemente só foram exibidos em festivais. Mas penso principalmente no primeiro corte integral, de 2h de duração, ainda mais considerando que 500 cópias dessa versão foram vendidas na época - certamente alguém ainda guarda uma delas e poderia torná-la acessível na internet. Há ainda a edição de colecionador, que imagino que seja mais difícil ainda de se encontrar, pelo fato de que poucos adquiriram.




Fontes consultadas:



https://outrahora.com/blog/entrei-em-panico-ao-saber-o-que-voces-fizeram-na-sexta-feira-13-do-verao-passado-redux


https://www.imdb.com/pt/title/tt2756880/trivia/?ref_=tt_dyk_trv


https://www.reddit.com/r/BrasilLostMedia/s/C27nSGGEqG


https://7marte.com/2021/04/critica-entrei-em-panico.html


https://www.cinematecapauloamorim.com.br/portaldocinemagaucho/261/entrei-em-panico-ao-saber-o-que-voces-fizeram-na-sexta-feira-13-do-verao-passado


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dezembro 14, 2025

Ecos de um cabaré fantasmagórico: registros do projeto Skinnerbox

Há um tempo atrás, eu resolvi pesquisar bandas e músicas com nomes de conceitos e autores da psicologia (sou estudante de psicologia) e me deparei com o projeto 'Skinnerbox' da artista multi-instrumentista Julianna Towns. Chamo de projeto e não de banda justamente pela falta de membros - Julianna é a principal responsável pelos vocais e instrumentais utilizados, que abrangem guitarra, baixo, teclado, flauta, gaita, harpa, sintetizador, vibrafone, dentre outros. O som de Skinnerbox é completamente experimental e pode ser classificado possivelmente como 'gótico' e 'darkwave', sendo ainda associado ao que se chamou de "heavenly voices', ou 'vozes etéreas'. 

Quando ouvi o álbum epônimo pela primeira vez, me senti hipnotizada com tanto mistério e beleza entranhados nas músicas - como se eu estivesse em um cabaré assombrado, envolvida pela voz de um anjo. Após pesquisar mais sobre o projeto e sobre Julianna Towns, me surpreendi com a escassez de informações sobre ambos - mesmo os uploads no youtube das músicas tinham pouquíssimas interações dos usuários.  Por esse motivo, resolvi escrever esse post para apreciar essa produção tão subestimada e conservar as informações sobre ela para a posteridade.

Começando do começo, deve ser notado que Julianna Towns já se envolveu em outros projetos musicais além de Skinnerbox, sendo creditada por produções desde 1983. Ela já participou das bandas Peace Corpse¹ (anteriormente configurada como Moslem Birth) e  Zimbo Chips, além de ser creditada pela colaboração em álbuns de black tape for a blue girl². Além disso, Towns fundou a gravadora independente Toxic Shock Records com o marido Bill Sassenberger em 1983³. 

O projeto Skinnerbox teve o lançamento de seu primeiro álbum (também chamado de Skinnerbox) em 1988, distribuído pela gravadora Bobok Ltd. 
A seguir estão todos os álbuns e suas respectivas músicas, por ordem de lançamento. 

1 - Skinnerbox (1988)

Capa do vinil, com ilustração creditada a Mark Erskine⁴


Lado A do vinil 

Lado B do vinil

Contracapa do vinil

Músicas de destaque e recomendações: Drowning Street, Grenadine e Proud Flesh.
As fotos das capas de disco são as únicas que pude encontrar, não achei nenhuma outra com a qualidade melhor. Infelizmente, também parece ser o único registro oficial das letras das músicas. 


2 - The Playhouse (1990)
Capa do vinil, ilustração por Aubrey Beardsley⁵

Vinil⁵

Músicas que recomendo desse álbum: Always Dear Iris, Red and White Roses e Whatever We Wanted. 

3. The Imaginary Heart Of (1991).
Capa da versão em cassete⁶


Capa do vinil⁷. Infelizmente o texto também está pouco legível

Imagem do disco vinil⁷.

Músicas que recomendo desse álbum : She Drapes The Sky, Sweet Release e Sybil Vane.

Enigmas de Skinnerbox:
    Como seria esperado de um projeto musical tão obscuro (e ainda, que antecede a popularização da internet), Skinnerbox possui poucos registros online (uma página no bandcamp, no discogs e um site bem vazio⁸). Além disso, como eu comentei anteriormente, as menções e comentários sobre o projeto também são escassos, encontrei apenas alguns posts no instagram e comentários no reddit que abordam o tema. 
Outra coisa é que não existem registros oficiais das letras de nenhuma das músicas, que já são bem difíceis de serem compreendidas, tanto por eu não ser uma falante nativa do inglês, quanto por que os vocais foram gravados de forma um pouco 'difusa' e 'etérea' que dificulta a compreensão. 
    Dito isso, é surpreendente que todas as músicas catalogadas em cada álbum estejam uploadadas no YouTube, YouTube Music e Spotify (ainda que estejam 'fusionadas' a uma banda de ska com o mesmo nome). 
    Sobre a idealizadora do Skinnerbox, Juliana, encontrei as informações que já coloquei acima, sobre a sua participação em outras bandas e projetos. Foi triste descobrir que ela faleceu recentemente, em 2019¹, eu tinha lido em algum site que foi devido a problemas cardíacos, mas não consigo localizá-lo agora. O seu marido, Bill Sassenberger, relatou bastante do seu relacionamento com a esposa e a experiência de ambos com a música no livro autobiográfico Toxic Shock Records: Assassin of Mediocrity - A Story of Love, Loss and Loud Music⁹.


Referências: 

1 - https://www.instagram.com/p/C4vl-INRxS4/ 

2 - https://www.discogs.com/artist/430909-Julianna-Towns?srsltid=AfmBOoqUrc-vnPBpSDRJhR_3h4XUHhHKeQpACr_p2j0T8HyyFWM6ky3m

3 - https://en.wikipedia.org/wiki/Toxic_Shock_Records

4 - https://www.discogs.com/release/1443337-Skinner-Box-Skinner-Box

5 - https://www.discogs.com/master/336679-Skinner-Box-The-Playhouse

6 - https://www.discogs.com/release/3432882-Skinner-Box-The-Imaginary-Heart-Of

7 - https://www.discogs.com/release/5411552-Skinner-Box-The-Imaginary-Heart-Of

8 - http://www.empty.de/SkinnerBox.htm

9 - https://www.goldminemag.com/columns/punk-ology/owner-of-toxic-shock-records-on-his-punk-rock-memoir-about-music-and-lost-love/




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agosto 07, 2025

Relembrando o site : Contando História

 Hoje vim compartilhar uma memória sobre um site que eu visitava muito quando criança, que tenho certeza que fez parte da infância de muitos. 

Falo do site Contando História, criado pela professora Vera Rossi, cujos arquivos existentes no Wayback Machine datam de 2001 até meados de 2015. 

O site continha uma compilação de diversas histórias infantis, desde as clássicas até as enviadas pelos leitores ou originais. De cara, a primeira coisa que chamava atenção no era o webdesign, que era todo feito pela Vera Rossi (conforme ela assinava em diversas páginas). O mais divertido de se navegar pelo Contando História era a sua interatividade; os conteúdos eram organizados por várias seções diferentes, cada uma com um design único que era uma colagem de ilustrações, sprites e gifs em pixel art. Também tinham cursores customizados, aqueles que deixavam uma trilha pelo caminho. Outra coisa que tinha em algumas páginas era aquele efeito de "chuva" de pngs em uma página que impressionava qualquer criança que estava descobrindo a internet. Aqui estão alguns prints de páginas do site que me chamaram a atenção pela fofura e composição do webdesign. 


Mensagem de recepção do site, inalterada desde a sua criação em 20 de agosto de 2001


Página das fábulas

Página 1 da seção de Histórias Divertidas

O "menu" final de cada página era sempre customizado de acordo com o tema

Página inicial da seção Mundo Fantástico

Menu do Mundo Fantástico

Página com folhas de caderno customizadas pra baixar

Menu das fadas

Seção das bruxas

Paisagem interativa de Atlantis

Jogo de vestir da história "A falsa aparência"


Seção de receitas

Revisitando o site, percebo que, mesmo que muitos dos gráficos (desenhos e Gifs) tenham sido feitos pela Vera Rossi, tem muitos que nitidamente foram criados por outros artistas e  que não parecem ser algo "pra compartilhamento livre". O maior exemplo disso são as ilustrações de livros vintage que aparecem em muitas historinhas, as bonecas de fada e mesmo algumas artes furry que eu encontrei. 
Arte de furries do Deviantart

Exemplo de ilustrações "emprestadas" de livros vintage



Agora, sobre as histórias em si. Desde a infância sempre amei ler e ouvir histórias, e sempre apreciei quando uma história é bem contada. Acho que foi por isso que me encantei tanto com o Contando História, que poderia ser só um "copia e cola" de livrinhos infantis já existentes, mas que sempre contou com historinhas muito bem escritas, que são envolventes para a criança e a instigam a pesquisar; a perguntar mais sobre temas e palavras novas. Além disso, algumas das histórias eram narradas em áudio, que possuía um texto para acompanhar. Anexo nos links abaixo algumas das minhas histórias favoritas quando criança, bem como aquelas que, lendo agora, creio serem dignas de nota. 

Bruxas necessárias

A princesa gata

A ratinha branca

A falsa aparência

O espelho das fadas celestes

O segredo do alfaiate

O bosque encantado

Kikimora

A leiteira e o balde

Uma coisa que também encontrei é que foi compartilhado no site o trabalho do artista Ricardo Paonessa, que fez algumas animações para acompanhar livrinhos da Companhia das Letras. Como eu não consegui encontrar essas animações em outros lugares da internet, acho que vale a pena compartilhar aqui (inclusive, é impressionante que todos estão plenamente assistíveis graças ao Ruffle). 

A últma captura do Contando História que eu consegui acessar normalmente foi uma de 13 de agosto de 2015, e a partir deste momento o domínio ficou a venda. Fucei e fucei mas não consegui encontrar de modo algum qualquer coisa que fosse uma carta de despedida ou agradecimento da professora Vera Rossi. Dado a natureza educativa do site, naturalmente encontrei vários blogs de professores e pais que o recomendam, e pela abundância de contribuições dos leitores (no envio de histórias e no livro de visitas) só é possível estimar que ele tenha sido muito popular e apreciado. Dentre todas as hipóteses para o fechamento do site, a que me parece mais plausível é que a manutenção do domínio tenha se tornado muito custosa para Vera em determinado momento. 


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março 30, 2025

O mundo é foda

Essa é uma história, conto ou coisa parecida que eu escrevi, baseada em uma história real que meu pai me contou: 

"O mundo é foda" dizia Fernando.
Mas não se tratava de uma frase de efeito, casualmente pontuada em alguns momentos propícios. 
Fernando dizia "O mundo é foda" a qualquer um, a qualquer hora e em qualquer situação.
A frase era tão proferida por ele que tornou-se seu apelido. Ninguém na cidade conhecia Fernando, mas todos sabiam que o mundo dele era foda.

E não poderiam faltar histórias a seu respeito.
Fernando, como o andarilho urbano que era, pedia. Pedia um copo de pinga barata a qualquer um que visse à porta do bar.
Pedia também comida e um minuto de atenção para uma conversa furada, só o que não pedia era dinheiro.
Sua justificativa para tal era que buscava ser sincero com os seus doadores, que dar a um pedinte não deveria ser um investimento de destino dúbio como o é na maior parte das vezes.
Quando ia ao semáforo pedir, concorria com os outros miseráveis que, exigindo moedas, erguiam placas com suas prerrogativas trágicas e comoventes.
Já Fernando trazia em seu papelão os únicos dizeres :"O mundo é foda", em letras garrafais.

Nos botecos que frequentava, era bom ouvinte e ombro de lágrimas aos velhos bêbados; seus companheiros que, como ele, só encontravam alívio no bálsamo alcoólico.
E quando na rua, como o guardião noturno que era, Fernando zelava pelos outros vadios, pelas mocinhas que voltavam pra casa sozinhas, bem como as jovens almas que tão precocemente tentavam perder-se com drogas.
A estes últimos, não dirigia palavra, deixava que tomassem suas próprias conclusões após uma mirada em seu corpo esquálido; um conto de cautela vivo.
Não tinha a sabedoria dos monges filósofos, tinha apenas a loucura de uma Cassandra que, não podendo dizer o que sabe, deixa que os olhos inchados e a boca berrante falem por si : "O mundo é foda".

Um dia, Fernando foi convidado para o funeral do tio, para o grande desgosto de sua família.
Esta teria feito de tudo para dissuadir o velho acamado daquele último desejo de ver o sobrinho, mas ele partira antes que qualquer um pudesse protestar.
Contrafeitos, os parentes mandaram um amigo da família procurar o sobrinho do morto e dar-lhe o recado; não se rebaixariam tanto a ponto de falar com ele diretamente.

Ninguém esperava que Fernando realmente viesse ao funeral, afinal não era como se ele tivesse qualquer senso de responsabilidade para comparecer ao evento.
Mas lá estava ele, sem carne e em osso, vestindo uma camisa que achara no lixão e como calça tinha um trapo que mal lhe cobria a cueca.
Assim que entrou no salão, todas as senhoras de preto que soluçavam debruçadas sobre o caixão entreolharam-se, pálidas de constrangimento e desgosto.

Os pais de Fernando, que tinham o filho como morto há muitos anos, tentavam não olhar na direção daquele cadáver ambulante.
Mas o traste exalava um odor tão fétido; tão impregnado de urina, embriaguez e fracasso, que ninguém conseguia mais ignora-lo.
Muitos diriam mais tarde que Fernando fedia mais do que o tio defunto, estivesse ele descoberto.

Todos encararam o homem indigente enquanto ele mancava calmamente até a cúpula de vidro do morto .
Naquele momento, ninguém podia acreditar no que via; Fernando desaparecera.
Não havia ali um indigente, mas um homem inteligente que derramava lágrimas silenciosas por seu tio; o único que ainda pensava nele.
Foi quando ele olhou ao seu redor, encarando todos aqueles que haviam se afastado, segurando as crianças para perto de si.
Fernando pôs-se em um pranto ensandecido, urrando repetidamente como o louco bêbado que ele realmente era : "O mundo é foda".
Ninguém nunca se esqueceu daquele dia.

Não fiquei sabendo de mais nada que Fernando fez depois disso, só ouvi que morreu atropelado nesse ano novo.
Devem ter chamado algum parente pra reconhecer o corpo, mas não quiseram escrever  o nome dele na gaveta de concreto.
Pessoalmente, desconfio que o jazigo dele é aquele em que algum engraçadinho escreveu : "O mundo é foda".

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