A cantiga do capitão Van Horne
A vocês marujos, este fato que remonto
Pode mesmo se afeiçoar a conto.
Ainda assim, reluto em proferir,
Que o que contarei, sequer chegou a existir.
Há muitos anos neste mesmo convés.
Velejava inquieto, mediterrâneo através.
Penso que próximo à Espanha, quiçá.
Apesar de incerto se o que vi foi visto lá.
Já tardava quando um vagalhão se anunciou
Escala bíblica possuía, o navio abalou
Mas contra o risco, não bastava meu culhão
O diabo levou-me da nau, meu destino em sua mão.
Por força que desconheço, despertei numa ilhota.
Sem vivalma, sem o velho chiar da gaivota
Sumira também a embarcação, nem o menor sinal.
Teria meu refúgio na ilha, por bem ou por mal.
Era uma terra mínima, menor que aquelas do Egeu
De fauna uns mexilhões, mas os frutos bastavam, acho eu
Assim que certa noite nas águas profundas avistara.
Miragem trêmula e indistinta, de onde vinha luz clara.
Puxando o fôlego que me era disponível,
Mergulhei até que a visão ficasse legível.
As ruínas de um castelo, era o que discernia
Um cemitério majestoso de calcário, que ainda se erguia
Em busca de espólios, me aventurei dentro do forte.
Ponderando como terminara com tal sorte.
Mais adentro encontro uma câmara bem oculta.
Jazia lá um baú; a glória de um antigo reino sepulta.
Juro-lhes, bucaneiros, o brilho dourado que de dentro reluziu
Era muito mais que legítimo, pois de minha mente nunca partiu.
Assim que mirando ao redor, percebo
Um esqueleto acorrentado a flutuar, de um mancebo
Todos já ouviram o que se conta deste agouro
De um cadáver assim tão próximo de um tesouro
Mas como não me conhecem como pirata supersticioso
Me apoderei das correntes, para carregar meu precioso.
Com a arca em mãos, vieram as três luas da ruína
Que fizeram da ilha prisão, do tesouro minha sina
No primeiro mês, o alimento da terra tornou a apodrecer
Apenas os vermes e o tesouro para me satisfazer
Com a segunda lua, outra ocorrência enigmática
Noites frias e nefastas a trazer palavra enfática
Palavra daquilo que já me dera por entendido
Que ao trazer o baú, uma feitiçaria havia atraído
Digam-me comparsas, em meu lugar que fariam?
Dariam ouvidos às vozes tentadoras que chiam?
Enfim chegou a terceira lua e com ela a pestilência
Pragas peludas que me torturaram até a demência
Antevendo meu fim, orei ao Deus de quem se fala
Urgindo morte rápida para a voz que não se cala
Arremesso o tesouro de volta ao mar, desesperado
E não é que no dia seguinte, da orla vejo meu navio, intocado?
E por isso vivo aqui estou, como bem podem comprovar
Pois o resgate veio a mim, mas não sem do baú me livrar
Podem dizer que é mentira, galhofar do que passei
E se for, Van Horne não me chamo, esta cantiga nunca cantei.
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