outubro 29, 2022

A cantiga do capitão Van Horne

 A vocês marujos, este fato que remonto

Pode mesmo se afeiçoar a conto.

Ainda assim, reluto em proferir,

Que o que contarei, sequer chegou a existir.


Há muitos anos neste mesmo convés.

Velejava inquieto, mediterrâneo através.

Penso que próximo à Espanha, quiçá.

Apesar de incerto se o que vi foi visto lá.


Já tardava quando um vagalhão se anunciou

Escala bíblica possuía, o navio abalou

Mas contra o risco, não bastava meu culhão

O diabo levou-me da nau, meu destino em sua mão.


Por força que desconheço, despertei numa ilhota.

Sem vivalma, sem o velho chiar da gaivota

Sumira também a embarcação, nem o menor sinal.

Teria meu refúgio na ilha, por bem ou por mal.


Era uma terra mínima, menor que aquelas do Egeu

De fauna uns mexilhões, mas os frutos bastavam, acho eu

Assim que certa noite nas águas profundas avistara.

Miragem trêmula e indistinta, de onde vinha luz clara.


Puxando o fôlego que me era disponível,

Mergulhei até que a visão ficasse legível.

As ruínas de um castelo, era o que discernia

Um cemitério majestoso de calcário, que ainda se erguia


Em busca de espólios, me aventurei dentro do forte.

Ponderando como terminara com tal sorte.

Mais adentro encontro uma câmara bem oculta.

Jazia lá um baú; a glória de um antigo reino sepulta.


Juro-lhes, bucaneiros, o brilho dourado que de dentro reluziu

Era muito mais que legítimo, pois de minha mente nunca partiu.

Assim que mirando ao redor, percebo 

Um esqueleto acorrentado a flutuar, de um mancebo


Todos já ouviram o que se conta deste agouro

De um cadáver assim tão próximo de um tesouro

Mas como não me conhecem como pirata supersticioso

Me apoderei das correntes, para carregar meu precioso.


Com a arca em mãos, vieram as três luas da ruína

Que fizeram da ilha prisão, do tesouro minha sina

No primeiro mês, o alimento da terra tornou a apodrecer

Apenas os vermes e o tesouro para me satisfazer


Com a segunda lua, outra ocorrência enigmática

Noites frias e nefastas a trazer palavra enfática

Palavra daquilo que já me dera por entendido

Que ao trazer o baú, uma feitiçaria havia atraído


Digam-me comparsas, em meu lugar que fariam?

Dariam ouvidos às vozes tentadoras que chiam?

Enfim chegou a terceira lua e com ela a pestilência

Pragas peludas que me torturaram até a demência


Antevendo meu fim, orei ao Deus de quem se fala

Urgindo morte rápida para a voz que não se cala

Arremesso o tesouro de volta ao mar,  desesperado

E não é que no dia seguinte, da orla vejo meu navio, intocado?


E por isso vivo aqui estou, como bem podem comprovar

Pois o resgate veio a mim, mas não sem do baú me livrar

Podem dizer que é mentira, galhofar do que passei

E se for, Van Horne não me chamo, esta cantiga nunca cantei.

another wandering soul

Marcadores:

0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial