outubro 29, 2022

O auto da virtude

Contexto : Os personagens do auto se encontram no elevador do edifício Alighieri, condomínio onde habitam, e descendem em direção ao piso térreo, expondo uma nova desvirtude a cada andar.

Personagens:

Justino 

Roberto 

Dolores 

Heitor 

Catarina  


Justino, do nono andar, sobe no elevador, que desce até o oitavo piso.

(Entra Roberto no elevador, embriagado e carregando uma garrafa)

Roberto – Que beleza, o elevador vazio a esta hora da matina.

Justino – (fareja Roberto, de longe, e se volta para a plateia) Pelo cheiro, esse aí madrugou na jogatina.

Roberto –  (se aproximando de Justino) Mas muito bom dia, meu senhor! Pois já nos inicia mais um dia de cão?

Justino – (força um sorriso)  Sim, sim, mais um dia de digna labuta. (vira-se para a plateia) ...E para outros devassidão!

Roberto – (toma um gole de sua garrafa)  É como eu mesmo digo, bebericar a cada despertar, menos uma frustração para se queixar

Justino – (nervoso) Er... o senhor se digna a dizer qual andar? 

Roberto – Ao ‘senhor’(zombeteiro)  aqui, o primeiro é o mais digno, s’il vous plaît.

Justino – Sim, sim, é pra já. (para a plateia) É cada um que hoje se vê...

(Elevador abre no sexto andar, entra Catarina, apressada, olhando sua bolsa)

Catarina –  Bom dia senhores, vamos andando que nem todos têm tempo. 

Roberto – Oh! (ri ) Se vê que esta não tem passatempo.

Justino – (para a plateia, escarninho) Para dizer isto, este não deve ter nobre ocupação.

Catarina – (nervosa) Quanta demora! O meu tempo não é barato, não!

(Elevador abre no quinto andar, entram Heitor e Dolores)

Heitor – Dia... (para Justino) Vá pro canto ali, moço, que o espaço tá miúdo.

 Justino – (se retira para o canto, com Dolores, e se volta para a plateia) Quem é este gigante rústico agora, sem conteúdo?

Dolores – (para Justino) Não dê importância senhor, meu vizinho é assim mesmo. Tem bom coração apesar de seu jeito.

Justino - (para a platéia) A pobre senhora não vê defeito.

(Elevador chega ao térreo e suas portas permanecem fechadas)

Roberto - (ri)Deu o trambolho de ficar emperrado.

Catarina - (aborrecida) Depois disso, não há pior estado.

(Luzes do elevador se apagam)

(Dolores esbarra em alguém)

Dolores : Ai! Desculpe, senhora… ou senhor.

Justino : Quanta confusão neste elevador!

(Luzes se acendem de novo)

Roberto - A luz, enfim!

Dolores - Esperem! (aflita) Não acho minha carteira, foi tirada de mim! 

Justino - Será possível que alguém a tenha furtado? No breu?

Heitor - Olhem seus bolsos, não está no meu.

Catarina - (revirando a bolsa) Ufa! Está bem aqui. 

Dolores - A carteira que há pouco perdi?

Catarina - Não, a minha própria, de lã pura.

Justino - (para a plateia) Eis aí outra vítima da usura

Heitor - (irritado) Deixem de enrolação e digam logo, quem a pegou?

Justino - Digo que foi aquele com quem a senhorinha esbarrou.

Dolores - Não pude ver as feições do sujeito, o que fazer?

Justino - Julguemos os perfis de cada um, eis como resolver.

Justino - Poderíamos suspeitar da outra moça por sua ganância, antecipo.

Catarina - (arrogante) Eu nunca faria algo do tipo.

Roberto - Não acredito que nossa lady tenha tido tamanha audácia.

Justino - Realmente, mas tu por outro lado seria capaz dessa perspicácia.

(É incutido no elevador um burburinho de aprovação)

Justino - Digam, que tipo de pessoa virtuosa troça de outros e anda embriagada?

Heitor - Tens razão (para Roberto)

Se roubastes mesmo minha vizinha, tua vida estará acabada.

Roberto - (aflito) Quê? Agora me apontam o dedo por ser boêmio?

Dolores - (irada) E o safado pegou minha carteira por prêmio.

Roberto - Mas por que creem neste apressado juiz?

Catarina - Ele parece ser um homem de moral que sabe o que diz.

(Portas do elevador se abrem)

(Heitor agarra Roberto pelo colarinho) Heitor - Liguem para a polícia enquanto eu seguro o infrator.

Dolores - Um homem de valores tão baixos, que horror!

Catarina - Um pulha assim só comete ofensa.

(Justino sai do elevador em silêncio para um exterior escuro e difuso, com uma sinfonia horripilante de labaredas e berros inumanos ao fundo)

(Justino sorri, erguendo ao seu olhar a nova carteira, tirada do bolso do paletó)

Justino - (para si) Um defensor da virtude há de ter sua recompensa.




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