O auto da virtude
Contexto : Os personagens do auto se encontram no elevador do edifício Alighieri, condomínio onde habitam, e descendem em direção ao piso térreo, expondo uma nova desvirtude a cada andar.
Personagens:
Justino
Roberto
Dolores
Heitor
Catarina
Justino, do nono andar, sobe no elevador, que desce até o oitavo piso.
(Entra Roberto no elevador, embriagado e carregando uma garrafa)
Roberto – Que beleza, o elevador vazio a esta hora da matina.
Justino – (fareja Roberto, de longe, e se volta para a plateia) Pelo cheiro, esse aí madrugou na jogatina.
Roberto – (se aproximando de Justino) Mas muito bom dia, meu senhor! Pois já nos inicia mais um dia de cão?
Justino – (força um sorriso) Sim, sim, mais um dia de digna labuta. (vira-se para a plateia) ...E para outros devassidão!
Roberto – (toma um gole de sua garrafa) É como eu mesmo digo, bebericar a cada despertar, menos uma frustração para se queixar
Justino – (nervoso) Er... o senhor se digna a dizer qual andar?
Roberto – Ao ‘senhor’(zombeteiro) aqui, o primeiro é o mais digno, s’il vous plaît.
Justino – Sim, sim, é pra já. (para a plateia) É cada um que hoje se vê...
(Elevador abre no sexto andar, entra Catarina, apressada, olhando sua bolsa)
Catarina – Bom dia senhores, vamos andando que nem todos têm tempo.
Roberto – Oh! (ri ) Se vê que esta não tem passatempo.
Justino – (para a plateia, escarninho) Para dizer isto, este não deve ter nobre ocupação.
Catarina – (nervosa) Quanta demora! O meu tempo não é barato, não!
(Elevador abre no quinto andar, entram Heitor e Dolores)
Heitor – Dia... (para Justino) Vá pro canto ali, moço, que o espaço tá miúdo.
Justino – (se retira para o canto, com Dolores, e se volta para a plateia) Quem é este gigante rústico agora, sem conteúdo?
Dolores – (para Justino) Não dê importância senhor, meu vizinho é assim mesmo. Tem bom coração apesar de seu jeito.
Justino - (para a platéia) A pobre senhora não vê defeito.
(Elevador chega ao térreo e suas portas permanecem fechadas)
Roberto - (ri)Deu o trambolho de ficar emperrado.
Catarina - (aborrecida) Depois disso, não há pior estado.
(Luzes do elevador se apagam)
(Dolores esbarra em alguém)
Dolores : Ai! Desculpe, senhora… ou senhor.
Justino : Quanta confusão neste elevador!
(Luzes se acendem de novo)
Roberto - A luz, enfim!
Dolores - Esperem! (aflita) Não acho minha carteira, foi tirada de mim!
Justino - Será possível que alguém a tenha furtado? No breu?
Heitor - Olhem seus bolsos, não está no meu.
Catarina - (revirando a bolsa) Ufa! Está bem aqui.
Dolores - A carteira que há pouco perdi?
Catarina - Não, a minha própria, de lã pura.
Justino - (para a plateia) Eis aí outra vítima da usura
Heitor - (irritado) Deixem de enrolação e digam logo, quem a pegou?
Justino - Digo que foi aquele com quem a senhorinha esbarrou.
Dolores - Não pude ver as feições do sujeito, o que fazer?
Justino - Julguemos os perfis de cada um, eis como resolver.
Justino - Poderíamos suspeitar da outra moça por sua ganância, antecipo.
Catarina - (arrogante) Eu nunca faria algo do tipo.
Roberto - Não acredito que nossa lady tenha tido tamanha audácia.
Justino - Realmente, mas tu por outro lado seria capaz dessa perspicácia.
(É incutido no elevador um burburinho de aprovação)
Justino - Digam, que tipo de pessoa virtuosa troça de outros e anda embriagada?
Heitor - Tens razão (para Roberto)
Se roubastes mesmo minha vizinha, tua vida estará acabada.
Roberto - (aflito) Quê? Agora me apontam o dedo por ser boêmio?
Dolores - (irada) E o safado pegou minha carteira por prêmio.
Roberto - Mas por que creem neste apressado juiz?
Catarina - Ele parece ser um homem de moral que sabe o que diz.
(Portas do elevador se abrem)
(Heitor agarra Roberto pelo colarinho) Heitor - Liguem para a polícia enquanto eu seguro o infrator.
Dolores - Um homem de valores tão baixos, que horror!
Catarina - Um pulha assim só comete ofensa.
(Justino sai do elevador em silêncio para um exterior escuro e difuso, com uma sinfonia horripilante de labaredas e berros inumanos ao fundo)
(Justino sorri, erguendo ao seu olhar a nova carteira, tirada do bolso do paletó)
Justino - (para si) Um defensor da virtude há de ter sua recompensa.
Marcadores: pessoal



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