O mundo é foda
Essa é uma história, conto ou coisa parecida que eu escrevi, baseada em uma história real que meu pai me contou:
Mas não se tratava de uma frase de efeito, casualmente pontuada em alguns momentos propícios.
Fernando dizia "O mundo é foda" a qualquer um, a qualquer hora e em qualquer situação.
A frase era tão proferida por ele que tornou-se seu apelido. Ninguém na cidade conhecia Fernando, mas todos sabiam que o mundo dele era foda.
E não poderiam faltar histórias a seu respeito.
Fernando, como o andarilho urbano que era, pedia. Pedia um copo de pinga barata a qualquer um que visse à porta do bar.
Pedia também comida e um minuto de atenção para uma conversa furada, só o que não pedia era dinheiro.
Sua justificativa para tal era que buscava ser sincero com os seus doadores, que dar a um pedinte não deveria ser um investimento de destino dúbio como o é na maior parte das vezes.
Quando ia ao semáforo pedir, concorria com os outros miseráveis que, exigindo moedas, erguiam placas com suas prerrogativas trágicas e comoventes.
Já Fernando trazia em seu papelão os únicos dizeres :"O mundo é foda", em letras garrafais.
Nos botecos que frequentava, era bom ouvinte e ombro de lágrimas aos velhos bêbados; seus companheiros que, como ele, só encontravam alívio no bálsamo alcoólico.
E quando na rua, como o guardião noturno que era, Fernando zelava pelos outros vadios, pelas mocinhas que voltavam pra casa sozinhas, bem como as jovens almas que tão precocemente tentavam perder-se com drogas.
A estes últimos, não dirigia palavra, deixava que tomassem suas próprias conclusões após uma mirada em seu corpo esquálido; um conto de cautela vivo.
Não tinha a sabedoria dos monges filósofos, tinha apenas a loucura de uma Cassandra que, não podendo dizer o que sabe, deixa que os olhos inchados e a boca berrante falem por si : "O mundo é foda".
Um dia, Fernando foi convidado para o funeral do tio, para o grande desgosto de sua família.
Esta teria feito de tudo para dissuadir o velho acamado daquele último desejo de ver o sobrinho, mas ele partira antes que qualquer um pudesse protestar.
Contrafeitos, os parentes mandaram um amigo da família procurar o sobrinho do morto e dar-lhe o recado; não se rebaixariam tanto a ponto de falar com ele diretamente.
Ninguém esperava que Fernando realmente viesse ao funeral, afinal não era como se ele tivesse qualquer senso de responsabilidade para comparecer ao evento.
Mas lá estava ele, sem carne e em osso, vestindo uma camisa que achara no lixão e como calça tinha um trapo que mal lhe cobria a cueca.
Assim que entrou no salão, todas as senhoras de preto que soluçavam debruçadas sobre o caixão entreolharam-se, pálidas de constrangimento e desgosto.
Os pais de Fernando, que tinham o filho como morto há muitos anos, tentavam não olhar na direção daquele cadáver ambulante.
Mas o traste exalava um odor tão fétido; tão impregnado de urina, embriaguez e fracasso, que ninguém conseguia mais ignora-lo.
Muitos diriam mais tarde que Fernando fedia mais do que o tio defunto, estivesse ele descoberto.
Todos encararam o homem indigente enquanto ele mancava calmamente até a cúpula de vidro do morto .
Naquele momento, ninguém podia acreditar no que via; Fernando desaparecera.
Não havia ali um indigente, mas um homem inteligente que derramava lágrimas silenciosas por seu tio; o único que ainda pensava nele.
Foi quando ele olhou ao seu redor, encarando todos aqueles que haviam se afastado, segurando as crianças para perto de si.
Fernando pôs-se em um pranto ensandecido, urrando repetidamente como o louco bêbado que ele realmente era : "O mundo é foda".
Ninguém nunca se esqueceu daquele dia.
Não fiquei sabendo de mais nada que Fernando fez depois disso, só ouvi que morreu atropelado nesse ano novo.
Devem ter chamado algum parente pra reconhecer o corpo, mas não quiseram escrever o nome dele na gaveta de concreto.
Pessoalmente, desconfio que o jazigo dele é aquele em que algum engraçadinho escreveu : "O mundo é foda".


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